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Estar Perdido

Crise

Os Guarani andaram durante séculos à procura da Yvy marã e'ỹ — a Terra Sem Males. Não era um lugar marcado no mapa, porque o mapa não existia: era um lugar que existia à frente, sempre à frente, que se aproximava quanto mais se caminhava em direção a ele com pureza de coração e leveza de corpo. Os pajés Guarani ensinavam que o caminho para a Terra Sem Males exigia dançar, cantar, comer cada vez menos, e caminhar sem parar. Muitas comunidades partiram. Muitas se perderam no percurso — nas matas do Mato Grosso, nas serras do sul, nas praias do litoral. E ainda partiram outras depois delas.

O que é isso senão um povo que escolheu estar perdido como forma de fidelidade ao destino? Que preferiu o desorientamento da busca honesta à segurança da acomodação? Os Guarani que morreram sem chegar à Terra Sem Males não fracassaram — estavam no caminho. O fracasso seria ter parado.

Álvaro de Campos, o heterônimo mais irrequieto de Fernando Pessoa, escreveu: "Não sou nada. / Nunca serei nada. / Não posso querer ser nada. / À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo." É o paradoxo do estar perdido levado ao extremo: o homem que admite que não é nada — que não tem endereço fixo no mundo, que não encontrou o caminho que se supõe encontrar — e que descobre que nessa ausência de tudo, existe tudo. A perda total como condição do sonho total.

O sonho de estar perdido, no Brasil, carrega esses dois polos: o caminhar Guarani em busca do que não está no mapa, e o abismo luminoso de Campos onde a perda é a única identidade honesta.

Situações típicas nos sonhos

Cenário: Perdido no sertão — a terra aberta, o céu grande, nenhum caminho: O sertão onírico é o lugar onde as coordenadas convencionais não funcionam. Não há prédios, não há sinais de trânsito, não há nada exceto a imensidão seca e bela. Esse sonho de perda na vastidão convida à mesma questão que Riobaldo: você está perdido porque faltam marcos externos, ou porque ainda não aprendeu a se orientar pelo interior? O sertão exige que você se torne seu próprio guia. O que você sabe, a partir de dentro, que o mapa nunca poderia te ensinar?

Cenário: Perdido numa cidade que deveria ser familiar — as ruas não fazem sentido: A cidade conhecida que se torna labiríntica é o sonho do ambiente familiar que perdeu a inteligibilidade. Algo mudou — em você ou no ambiente — e os velhos caminhos não levam mais aos destinos esperados. É o sonho das transições de vida: quando o mapa que você tinha para essa fase da existência não serve mais para a fase que começa. Não porque o mapa era errado — mas porque o território mudou.

Cenário: Perdido e descobrindo que não importa — a exploração livre: A versão Guarani do estar perdido: não ter mapa mas ter direção interior. Não saber exatamente onde se está mas saber que está no caminho. Esse sonho, em que a desorientação geográfica coexiste com uma paz surpreendente, é o que os Guarani experientes conheciam: que a Terra Sem Males não está no GPS, e que a bússola que importa é interna. Você está nesse ponto?

Cenário: Perdido e procurando alguém — você sabe quem, mas não onde: A busca específica no interior da desorientação. O estar perdido não é vazio; está orientado para um objeto de busca. Quem é essa pessoa? Na maioria dos sonhos de busca dentro do estar perdido, a pessoa que se procura é um aspecto do próprio sonhador — uma versão anterior ou futura de si mesmo, uma qualidade perdida no percurso da vida, um potencial que foi deixado para trás numa encruzilhada. Riobaldo procurou Diadorim por todo o sertão. O que você está procurando no seu?

Cenário: Perdido, e um guia aparece: O sonho providencial — quando no ponto de maior desorientação uma figura se apresenta com um caminho ou com um sinal. Na tradição indígena, esse guia é o espírito do lugar. Na tradição afro-brasileira, pode ser Exu abrindo o caminho ou Ogum cortando o mato com o facão. Na tradição pessoana, é o heterônimo que você ainda não inventou — a voz interior que sabe o caminho e que você ainda não aprendeu a ouvir. Quem apareceu no seu sonho? O que essa figura representa?

Emoções e desenvolvimento pessoal

A ansiedade é a emoção mais comum no sonho de estar perdido — mas ela tem camadas. Debaixo da ansiedade, frequentemente há vergonha: a vergonha de não saber para onde vai, de não ter o plano que todos os outros parecem ter. E debaixo da vergonha, às vezes, um alívio secreto: a possibilidade de que se você está perdido, talvez as expectativas que lhe foram impostas não se apliquem mais. Talvez o caminho errado seja a saída de uma direção que nunca foi sua.

O desenvolvimento sugerido por esse símbolo é a tolerância ao não-saber como condição permanente da vida significativa. Os Guarani não chegaram à Terra Sem Males, mas o caminho que percorreram foi a Terra Sem Males. O sertão de Riobaldo não resolveu a questão do diabo, mas a travessia do sertão foi a resposta. O caminho é o destino — mas isso só se compreende tendo estado perdido tempo suficiente para saber que perder-se não é o oposto de chegar.

Guia de interpretação

1. Em que território você estava perdido? Sertão, cidade, floresta, espaço sem nome — o território tem uma alma própria e aponta para a dimensão da vida onde a desorientação está localizada. 2. Você estava procurando algo específico ou apenas sem direção? A busca com objeto é diferente da desorientação pura: ela tem uma orientação oculta que o sonho pode estar revelando. 3. Como você reagiu — com pânico, com calma, ou com curiosidade? A atitude diante do estar perdido é o retrato da sua relação com a incerteza na vida desperta. 4. Havia outros perdidos com você, ou você estava sozinho? A solidão ou a companhia na desorientação muda a experiência completamente — e revela se você sente que sua situação é única ou compartilhada. 5. Um guia apareceu? Quem ou o quê? A figura de orientação que emerge no momento da maior desorientação é frequentemente o comunicado mais importante do sonho inteiro. 6. O sonho resolveu o estar perdido, ou terminou ainda sem saída? O desfecho indica onde você está no processo — ainda no meio do sertão, ou vendo a primeira luz da beira da floresta.

O sertão que está dentro do homem

Riobaldo, o narrador de Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa, está perdido em todos os sentidos que a palavra suporta. Geograficamente: ele atravessa o sertão de Minas Gerais sem mapa, sem bússola, com a certeza apenas de que o sertão não é linear e que os rios não são de fiar como guias. Moralmente: ele não sabe se fez ou não fez o pacto com o diabo, não sabe se o mal que viu e praticou foi seu ou de outros, não sabe se amou ou se matou de amor. Existencialmente: ele não sabe se existe um Deus ou um Diabo ou se o sertão apenas continua sendo o sertão.

A grande frase de Riobaldo — "O sertão está em toda parte" — é o mapa do estar perdido brasileiro. Não é apenas que o sertão é geograficamente vasto. É que o sertão é a condição interior de quem tenta encontrar um caminho num território que não se deixa cartografar pela lógica convencional. O sertão está dentro do homem, e por isso estar perdido no sertão é sempre, também, estar perdido em si mesmo.

Guimarães Rosa sabia, com a precisão de quem cresceu no sertão de Cordisburgo e voltou a percorrê-lo como médico, que o sertão exige um tipo de navegação diferente da navegação europeia: não o mapa e a bússola, mas o rastro, o cheiro de água, a sombra das árvores, a fala dos vaqueiros. Para navegar o sertão, é preciso uma inteligência que o sistema escolar nunca ensinará. E para navegar o estar perdido interior, é precisa uma inteligência que não se aprende nos livros de autoajuda.

Revisto pela Equipa Editorial da Dream Insight

As nossas interpretações baseiam-se na psicologia analítica junguiana, na investigação do simbolismo transcultural e na ciência contemporânea do sonho. São pontos de partida para a autorreflexão, não diagnósticos clínicos.

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Leituras adicionais

Para um maior aprofundamento em psicologia dos sonhos e ciência do sono, estas organizações publicam investigação revista por pares e recursos profissionais: