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Vermes

Animais

Clarice Lispector colocou sua personagem G.H. diante de uma barata morta e exigiu que ela olhasse. Não que observasse à distância, não que classificasse, não que recorresse a qualquer um dos mecanismos que a civilização construiu para tornar o repugnante tolerável. Olhar. E G.H. olhou — para a barata, para o que saía da barata, para a matéria branca e viva que emergia da carapaça esmagada — e o que encontrou nessa matéria não foi morte, não foi sujeira, não foi o esperado asco que deveria funcionar como parede entre ela e o que estava vendo. Encontrou a substância primordial. "A matéria viva da vida." O que existe antes de tomar qualquer forma reconhecível, o que existe depois de todas as formas se dissolverem, o que é sempre presente por baixo de toda a ilusão de solidez.

"A Paixão Segundo G.H." é, entre outras coisas, o único livro da literatura brasileira que transforma o encontro com a matéria em decomposição num ato místico. E é por isso que Clarice é a guia necessária para entrar no sonho com vermes — não para suavizá-lo, não para transformá-lo numa metáfora palatável, mas para fazer com ele o que a personagem fez com a barata: olhar diretamente, sem proteção, e descobrir o que está por baixo do nojo.

Variantes oníricas frequentes

Cenário: Vermes saindo do próprio corpo: Este é o sonho de Omolu na sua versão mais direta — o trabalho de decomposição que estava acontecendo por baixo da superfície finalmente emergindo para ser visto. G.H. diante da barata viveu isso: o que estava dentro revelando-se de forma que não pedia permissão. Psicologicamente, este sonho aparece quando o inconsciente decide que o processo de processamento de algo — um trauma, uma emoção reprimida, uma qualidade negada — chegou ao ponto em que não pode mais ser contido. O nojo que o sonho provoca é a resistência do ego ao que está emergindo. Mas o que emerge não é doença — é o processo que precisa acontecer para que a saúde seja possível.

Cenário: Vermes na comida, na terra, no que deveria ser nutritivo: A descoberta de que o que parecia são estava em processo de transformação por dentro — como G.H. que acreditava entender seu apartamento e sua vida, e que descobriu que havia uma realidade diferente habitando o espaço dela. Pode representar a revelação de que uma situação, um relacionamento ou uma crença que parecia intacta estava há tempo passando por um processo que ela não via. A pergunta que este sonho faz não é "está tudo podre?" mas "o que está sendo preparado pelo que está se dissolvendo?"

Cenário: Vermes num corpo morto — de pessoa ou de animal: O trabalho que já aconteceu ou está acontecendo depois que a forma chegou ao fim. Os vermes num corpo morto no sonho são os agentes da transição mais fundamental: aqueles que convertem o que foi em solo para o que virá. Este sonho aparece com frequência em processos de luto não terminado — não apenas pela morte de alguém, mas pela morte de uma fase, de uma identidade, de uma relação. Os vermes estão fazendo o que precisa ser feito para que o próximo capítulo possa começar.

Cenário: Lidar com vermes sem repulsa — com a calma do jardineiro: O gardener que separa as minhocas com as mãos enquanto planta, que sabe que a presença desses animais no solo é sinal de saúde, que não tem nojo porque entende o papel que eles desempenham — este é o sonhador que integrou a verdade que os vermes representam. A ausência do nojo não é ausência de sensibilidade: é a presença de uma compreensão mais ampla do ciclo. Este sonho aparece em momentos de maturidade psicológica específica, quando o sonhador aprendeu a reconhecer o valor do que dissolve.

Cenário: Ser forçado a engolir ou a tocar vermes: A coerção é o elemento central — alguém insistindo que o sonhador integre o que ele recusa. Pode representar pressões sociais, familiares ou institucionais para aceitar algo que o instinto reconhece como nocivo ou impróprio. A questão que esse sonho coloca é: quem está tentando te fazer digerir o que você não escolheria? E o que exatamente é que eles insistem que você deve aceitar?

Emoções e desenvolvimento pessoal

Clarice Lispector entendeu que o nojo é o guardião do limiar. Ele existe para proteger o ego do contato com o que dissolve a identidade estabelecida — e esse serviço é real, necessário, bem-intencionado. O problema não é o nojo: é quando o nojo se torna o modus operandi permanente, quando qualquer contato com o que é cru e real e decomponível é automaticamente rejeitado antes de ser examinado.

A prática que "A Paixão Segundo G.H." propõe — e que o sonho com vermes exige — não é a eliminação do nojo. É a disposição de permanecer com o nojo o tempo suficiente para ver o que está por baixo dele. Para descobrir se o que estava sendo protegido era a integridade verdadeira ou apenas a imagem da integridade. Para encontrar, como G.H. encontrou, que a matéria viva da vida está presente exatamente onde a civilização aprendeu a não olhar.

No contexto brasileiro, onde a desigualdade material é tão intensa que o que repugna a uns é a sobrevivência de outros, o sonho com vermes tem também uma dimensão política. O que a classe média urbana descartou como baixo, sujo, indigno — tanto na natureza quanto nas pessoas — é frequentemente aquilo que carrega a vitalidade mais autentica que resta. A minhoca que enriquece o solo que a cidade cobriu de asfalto. O camponês que sabe o nome de todos os vermes do seu roçado. A criança que brinca com o que os adultos aprenderam a ter medo de tocar.

Interprete este sonho

1. Os vermes estavam dentro do seu corpo, em algo externo, ou no ambiente? A localização especifica onde a transformação está acontecendo: no self mais íntimo, em algo que te pertence, ou no contexto de vida mais amplo. 2. A sua resposta emocional era nojo, curiosidade, ou serenidade? Cada uma dessas respostas revela um estado diferente de relação com o processo que o símbolo representa. 3. Os vermes se transformaram em algo no sonho? A presença ou ausência da metamorfose determina se o sonho tem a estrutura do processo em andamento ou do processo ainda sem resolução visível. 4. Havia uma figura que tentava te forçar a ter contato com os vermes? A dinâmica interpessoal do sonho é tão importante quanto o símbolo central. 5. O que estava sendo decomposto? A natureza do objeto infestado aponta para o que está em processo de dissolução na sua vida. 6. Você sentiu algo de Omolu no sonho? O cheiro de terra úmida, a presença de algo que parecia mais profundo que o pesadelo comum, a sensação de que havia uma inteligência no processo — esses são os sinais do Orixá da transformação pela doença e pela morte.

Omolu/Obaluaê: o senhor da doença e da transformação

No Candomblé, Omolu — também chamado Obaluaê — é o Orixá mais temido e, entre os iniciados, o mais amado. Ele é o senhor das doenças, das epidemias, da morte que vem pelo corpo. Mas ele é também o senhor da cura — porque quem controla a doença controla o remédio, quem tem autoridade sobre o parasita tem autoridade sobre a saúde que o elimina. Omolu veste palha que cobre todo o corpo, especialmente o rosto: ele não pode ser visto diretamente, não porque seja horrível, mas porque a sua presença é intensa demais para o olho humano comum.

Os vermes são do domínio de Omolu. Não de forma negativa — da forma como a terra é do domínio da terra. O verme que habita o corpo doente está obedecendo à lógica do Orixá da decomposição e da renovação: ele está fazendo o trabalho que prepara o terreno para a cura, ou o trabalho que continua depois que a cura já não é mais possível. Omolu não julga essa tarefa — ele a abençoa, porque sem ela nada de novo pode crescer.

Sonhar com vermes quando Omolu está próximo — e ele se faz sentir pelo fedor específico que às vezes permeia os sonhos, pela presença de feridas, de pele que se dissolve, de coisas que deveriam estar intactas e que revelam seu estado real — é receber um aviso do Orixá mais honesto do panteão. Algo em sua vida está no processo de Omolu. Algo está sendo decomposto para que algo novo possa nascer. O nojo que o sonho provoca é o nojo diante do trabalho necessário.

Revisto pela Equipa Editorial da Dream Insight

As nossas interpretações baseiam-se na psicologia analítica junguiana, na investigação do simbolismo transcultural e na ciência contemporânea do sonho. São pontos de partida para a autorreflexão, não diagnósticos clínicos.

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Leituras adicionais

Para um maior aprofundamento em psicologia dos sonhos e ciência do sono, estas organizações publicam investigação revista por pares e recursos profissionais: